quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica

A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica
Walter Benjamin - Publicado em 1955
Resenha por Luana Azevedo




Walter Benjamin em seu texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, nos apresenta o conceito de obra de arte, sua falsificação e a reprodução da cópia. Analisa a arte como pintura, fotografia e cinema, abrangendo assuntos políticos, religiosos e históricos.

Para Benjamin, a obra de arte sempre foi reprodutível já que tudo o que o homem cria pode ser imitado por outros homens. Porém, mesmo em uma reprodução perfeita, um elemento deixa de existir: o aqui e o agora da obra de arte, sua existência única. Na obra original a autenticidade está neste aqui e agora, o momento em que a arte foi produzida, a própria criação como a aura presente neste trabalho, o que a torna pura. No momento em que a obra é reproduzida e multiplicada, a beleza da sua existência única é substituída por uma existência serial. E na medida em que a reprodução técnica permite o alcance do espectador, a obra é atualizada. No cinema esse fenômeno é proposital, segundo Benjamin, o cinema não é original, já nasceu como cópia, recriando cenas do mundo real e produzido em série para sua comercialização e alcance das massas.

O texto nos permite analisar o fato das antigas obras de arte surgirem para fins ritualísticos e religiosos, mesmo no culto do Belo surgido na Renascença. Walter Benjamin destaca a partir desta menção a percepção para o momento em que a arte se emancipa destacando-se do ritual e passa a ser produzida cada vez mais para sua própria reprodução e sua função social se transforma: em vez de fundar-se no ritual, passa a fundar-se na política. Observamos o valor do culto, recuar ao valor de exposição mesmo oferecendo resistência. As antigas fotografias eram retratos de uma família inteira, pessoas que deixam saudade, que foram levadas pela morte e perpetuam a aura nas expressões faciais. A partir do momento em que o homem deixa de estar na fotografia para dar lugar a ruas vazias, o valor da exposição supera o valor do culto.

Benjamin coloca a falsificação mais próxima da obra de arte do que a reprodutibilidade técnica. Um artista que reproduz uma tela com seus detalhes perfeitos está produzindo arte enquanto um mero copiador ao reproduzir a mesma tela em série está completamente distante da obra. A aura está presente na expressão artística e na confecção da tela. Walter Benjamin declara que no cinema o mesmo fenômeno não ocorre, porque o objeto reproduzido deixa de ser uma obra de arte e tampouco a reprodução técnica do filme se apresenta com tal essência. Tendo em vista que todo conteúdo apresentado no filme foi testado e refeito diversas vezes até ser escolhida uma interpretação do ator cinematográfico, a arte do cinema consiste no conceito da obra e não na sua produção.

Ao analisar o trabalho do intérprete cinematográfico, onde o mesmo pode escolher a forma que interpreta para a massa e como coloca seu estrelato no mercado capitalista, podemos comparar a técnica de produção também na política. O “personagem” pode controlar o que será mostrado para a massa e apresentar-se da forma que desejar.  No fim do século XIX, com a imensa ampliação da imprensa, surgiram muitos órgãos políticos, religiosos, científicos e um número grande de leitores começaram a escrever. Os políticos perceberam que o público passou a ter a necessidade de compreender e criticar suas ações, o que obrigou os políticos a criar determinados partidos e personagens públicos para atender a cada exigência da massa.

Benjamin compara o trabalho do cinegrafista com o pintor: o pintor observa em seu trabalho uma distância natural entre a realidade dada a ele próprio, ao passo em que o cinegrafista penetra profundamente as vísceras dessa realidade. Lembra-nos que o dadaísmo tentou produzir através de suas obras, os efeitos que o público procura hoje no cinema: uma percepção sensível capaz de nos atingir. E critica o momento atual onde a quantidade converteu-se em qualidade, diferencia o recebimento da obra de arte entre a massa e o conhecedor, quando a massa procura diversão nas obras de arte enquanto o conhecedor a vê como objeto de devoção.

O texto abordado termina sua reflexão na estética da guerra, onde o fascismo vê sua salvação ao permitir às massas a expressar sua natureza, porém certamente não expressar seus direitos. O autor vê todos os esforços para estetizar a política tendo o foco na guerra, porque somente ela pode dar um objetivo aos grandes movimentos de massa. E faz uma comparação crítica remetendo-se à época de Homero onde a humanidade oferecia-se em espetáculo aos deuses olímpicos e nos dias atuais, ela se transforma em espetáculo para si mesma. A auto alienação permite o homem viver sua própria destruição com prazer estético.

“Raça e História” - Textos de Lévi-Strauss Resenhados por Luana Azevedo

Raça e Cultura
Diversidade das Culturas
O Etnocentrismo

Textos de Lévi-Strauss, “Raça e História” Publicado em 2000
Resenhados por Luana Azevedo



Lévi-Strauss afirma em seus textos que não existe superioridade ou inferioridade intelectual nas raças e culturas. Coloca-nos em questão o erro intelectual de Gobineau, pai das teorias racistas, que afirmou não existir desigualdade das raças humanas, porém repudiava a mestiçagem, o que deu margem para diversas discussões antropológicas, inclusive ênfase para o discurso de Adolf Hitler sobre a miscigenação das raças. Segundo Lévi-Strauss, a diversidade intelectual, estética e sociológica entre as raças não está ligada a nenhum plano biológico, e sim a fatores e circunstâncias geográficas, históricas e sociológicas. E ressalta que existem muito mais culturas humanas do que raças humanas. Duas culturas entre humanos da mesma raça podem diferir tanto ou mais que culturas de povos racialmente afastados. Essa diversidade cultural pode ser vista como vantagem ou inconveniente para a humanidade já que os grupos se subdividem em muitas outras culturas.

As culturas humanas não têm um grau de importância maior uma sobre a outra do mesmo modo que as raças não se distinguem. Vivemos em sociedades contemporâneas e ainda assim discriminamos os povos que ignoram a escrita e denominamo-os selvagens e primitivos. As desigualdades dos grupos sociais surgem a partir do afastamento geográfico, das propriedades particulares do meio e da ignorância em que se encontram em relação ao resto da humanidade. Encontram-se assim na afinidade ao desejar obter com a diferença cultural, sua superioridade. Um grupo deseja se destacar dos demais grupos próximos e distantes com objetivo de superá-los, seja na religião, na linguagem ou nos costumes, portanto as noções da diversidade humana não devem ser concebidas de uma maneira estática. A partir desse anseio de oposição e de serem elas próprias, não se sentindo atrasado quanto ao grupo vizinho, muitos costumes nasceram. Portanto, a diversidade das culturas humanas está mais ligada às relações que as une que a função de isolamento dos grupos sociais.

No texto O Etnocentrismo, Lévi-Strauss aborda a atitude mais antiga dos psicológicos sólidos, que consiste em repudiar as formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas mais afastadas daquelas que nos identificamos. A humanidade acaba em sua fronteira geográfica, lingüística, e nessas fronteiras designamos quem é o homem que possui virtudes e o homem que as detém. Analisamos claramente o paradoxo do relativismo cultural no mesmo texto, onde observamos que nos identificamos completamente com aqueles que tentamos negar, quando pretendemos estabelecer discriminação entre as culturas e os costumes de um distinto povo. Lévi-Strauss critica o falso evolucionismo presente na tentativa de suprimir a diversidade das culturas ao fingir que a conhecemos perfeitamente. E acrescenta que o evolucionismo social não é nada além da maquilagem falsamente científica de um velho problema filosófico para qual um dia a observação e a indução possam um dia fornecer a chave.